Palmas na Missa

Constantemente este tópico vem às conversas sobre liturgia. Palmas na Missa: Pode ou não?

 

Ramos de Palmeira

Se estivermos falando destas palmas, pode sim! No Domingo que inicia a Semana Santa, tá tudo certo!

 

Para responder esta pergunta, temos que ir a fundo. Não esperem uma resposta fácil como um trecho em um documento Litúrgico dizendo algo como “Se alguém bater palmas na Missa, seja anátema“. Isto não existe. Nenhum documento litúrgico oficial trata das palmas nas celebrações, e este gesto simplesmente não está previsto – o que já é um bom indício que não se deve fazer. Mas tem gente que insiste em fazer e defender…

 

Muitos dos defensores das palmas afirmam que não existe proibição explícita às palmas na Missa e por isso não é proibido. De fato, não existe mesmo. Mas eu peço a estes defensores das palminhas que me encontrem algum documento que proiba qualquer uma das imagens abaixo:

 

Padre Palhaço

Um padre palhaço. Procurei por “palhaço” nos livros litúrgicos e não encontrei nada. Então pode fazer?

 

Missa com chimarrão

Um baita churrascão bonito e um chimarrão, tchê! Duvido encontrarem uma frase proibindo isso na Liturgia

 

Agua Benta na Arma

Também não tem nada sobre arminha de brinquedo. Mas convenhamos que é melhor que jogar balde de água benta no povo.

 

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Quem não gosta de corujas? Sinto dizer, mas não tem nada nos livros litúrgicos proibindo. E agora, José?

 

E agora? Não temos textos proibindo estas coisas, mas mesmo assim sabemos que são erradas. Por quê?

 

A verdade é que os livros litúrgicos são uma  parcela do que rege a Sagrada Liturgia. E uma parcela até bem pequena. Muitas coisas que vivemos na Liturgia e em nosso serviço não estão nos livros oficiais, mas são frutos da venerável Tradição Litúrgica do Rito Romano. A segunda regra de ouro para a Liturgia é esta: Para algo ser litúrgico, deve ao mesmo tempo estar de acordo com as regras dos Livros Litúrgicos e com a Tradição Litúrgica do Rito Romano. Simples assim. E aqui as palmas já morrem, pois não estão nos livros. Mas… E na Tradição Litúrgica?

 

As palmas na Missa sob a ótica da Tradição Litúrgica

Em nosso artigo sobre a Santa Missa, demos a visão católica sobre o que é, de fato, a Santa Missa: É a renovação do Sacrifício do Calvário. É, sobretudo, o culto perfeito de adoração a Deus. Então eu lhes pergunto: Para que bater palmas na Missa? Se a Missa é a Renovação do Sacrifício da Cruz e o banquete, ligado ao sacrifício no mais estreito vínculo [1], então por que colocar um elemento festivo e profano em algo sagrado?

 

A primeira regra de ouro da Liturgia é esta: Se algo não é conveniente de fazer no Calvário, não se deve fazer na Missa. E isto sempre foi algo muito vivo na cabeça dos fiéis. Mas, com o modernismo, as novidades pareceram irresistíveis, e colocar as palmas na Missa foi visto como um jeito de torná-la mais “dinâmica” e “participativa“, distorcendo completamente o conceito de actuosa participatio[2] que o Concílio desejava.

 

O Calvário e a Missa

Diz-nos S. Leonardo de Porto-Maurício: Eis o meio mais adequado para assistir com fruto a Santa Missa: consiste em irdes à igreja como se fôsseis ao Calvário, e de vos comportardes diante do altar como o faríeis diante do Trono de Deus, em companhia dos santos anjos. Vede, por conseguinte, que modéstia, que respeito, que recolhimento são necessários para receber o fruto e as graças que Deus costuma conceder àqueles que honram, com sua piedosa atitude, mistérios tão santos.

 

Mas ainda assim tem gente que defende subjulgar a natureza sacrificial, diminuí-la, para exaltar a “celebração”, a “festa”, a alegria, e para isto fazem todo tipo de absurdos dentro da Missa. Isto é absolutamente contrário ao Espírito da Liturgia, e nós devemos resistir – embora caridosamente – a isso.

 

João Paulo II fez três duras críticas a esta postura. A primeira encontramos em sua carta apostólica Domenicae Caena, de 1980:

 

O mistério eucarístico disjunto da própria natureza sacrifical e sacramental deixa simplesmente de ser tal

 

Isto é forte. Tirar da Missa a sua natureza sacrificial é simplesmente fazê-la deixar de ser Missa. É torná-la outra coisa qualquer, uma reunião de fiéis, um simples banquete, um simples grupo de oração – ou mesmo algo próximo a um culto protestante.

 

A segunda crítica veio na Redemptionis Sacramentum, que aliás todo católico deveria ler:

 

De forma muito especial, todos procurem, de acordo com seus meios, que o santíssimo sacramento da Eucaristia seja defendido de toda irreverência e deformação, e todos os abusos sejam completamente corrigidos. Isto, portanto, é uma tarefa gravíssima para todos e cada um, excluída toda acepção de pessoas, todos estão obrigados a cumprir esta trabalho. (Número 183)

 

 

A terceira, na Ecclesia de Eucharistia, indica como deve ser feita a participação da comunidade que se une ao sacerdote:

 

O sacerdote, que celebra fielmente a Missa segundo as normas litúrgicas, e a comunidade, que às mesmas adere, demonstram de modo silencioso, mas expressivo o seu amor à Igreja. (num. 52)

 

Palmas são absolutamente irreverentes. Seja em aplausos – que são ainda piores – seja em palmas ritmadas com a música. Sobre isto, escreveu magistralmente Bento XVI quando ainda cardeal no fantástico “Introdução ao Espírito da Liturgia“:

 

Sempre que haja palmas pelos atos humanos na Liturgia, é sinal de que a natureza [da liturgia] se perdeu inteiramente, tendo sido substituída por diversão de gênero religioso. (Pag 167)

 

Que tal, então, o prefeito emérito da Congregação para o Culto Divino?

 

Quando vamos à Missa, não vamos para bater palmas, para admirar as pessoas, felicitá-las ou observá-las. Vamos para adorar a Deus, pedi-lo perdão pelos nossos pecados e pedirmos as graças que precisamos. [3]

 

Por fim, lembramos as palavras magistrais de nosso patrono, S. Pio X:

 

Não é certo que se aplauda o servo na casa do mestre.

 

Templum Dei, Templum Dei!

 

Precisamos ser fiéis ao que recebemos da Igreja. Recebemos de Nosso Senhor que a Missa é a maneira como ele quer ser adorado. Que a Liturgia é sagrada e ninguém tem o direito de modificá-la. É necessário humildade e resolução. Sim. Bater palmas na Missa é errado, e não importa quantos liturgistas digam o contrário, isto está gravado em pedra na tradição litúrgica da Igreja, de saber que a Missa é, mais do que celebração, mais do que ceia ou banquete, a renovação incruenta do Sacrifício da Cruz, onde se cale toda língua e se humilhe toda alma diante da grandeza do amor de Deus.

 

Sendo completamente sincero… A questão das palmas nem precisaria chegar nos livros ou na Tradição, mas é facilmente respondida pelo simples bom senso, algo que está em falta no mundo hodierno.

 

 

Mas e quando mandam bater palmas?

Muitas vezes passamos por situações onde nos constrangem a bater palmas. E é necessário saber resistir para não gerar conflitos, afinal não adianta defender a liturgia se for comprando briga com todo mundo.

 

A primeira coisa que você deve saber sobre isso é que você não deve obediência a ninguém quanto a cometer abusos na Liturgia. Mesmo o padre, agindo in Persona Christi, não tem o poder de lhe obrigar obrigar a bater palmas, dançar na Missa ou fazer qualquer outra coisa contrária as leis da Igreja.

 

É claro que você não vai comprar briga. Humildade sempre! Somos servos, não senhores da Liturgia. Se o padre ou qualquer outra pessoa desobedecer a Liturgia, isso não lhe dá motivos para desobedecer também. Se não bater palmas for causar inconvenientes, converse com respeito e humildade com o padre ou quem quer que seja e lhe esclareça sua posição. Ele provavelmente vai respeitar sua decisão. Caso, no entanto, a pessoa queira arrumar confusão por causa disso, reze e siga em frente, evitando o escândalo e sobrevivendo com calma e fortaleza às perseguições.

 

Referências:

[1] – Sagrada Congregação dos Ritos: Instrução sobre o culto do Mistério Eucarístico, 1967, Art. 3, b

[2] – Termo traduzido como “Participação Ativa dos Fiéis”

[3] – Boletim Adoremus; Vol. IX, no.7, Outubro de 2003

 

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